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quarta-feira, 18 de julho de 2012

As ideias não correspondem mais aos fatos.


Arnaldo Jabor 
(arnaldojabor@estadao.com.br)

Imagem de J.Bosco
O tempo atual é Renascença ou Idade Média? Os acontecimentos estão inexplicáveis, pois a barbárie das coisas invadiu o mundo dos homens. Temos um acesso à informação infinita, mas nada se fecha em conclusões coerentes, nada acaba, nada se define.
O socialismo não deu certo, o capitalismo global não trouxa paz nem progresso, tudo que depende da vontade dos homens e de seus sonhos de controle, não chega a um final feliz. As coisas têm vida própria e seus criadores não controlam mais os produtos. O mundo é cada vez mais uma tumultuosa marcha de fatos sem causa, de acontecimentos sem origem. Cada vez temos mais ciência e menos entendimento. As teorias não deram certo e percebemos hoje que Kafka e escritores do século 20, como Mann, Musil, depois Beckett e Camus, sacaram o lance. Esperando Godot é mais profundo e profético que 100 anos de ilusões políticas.
Hoje viramos objetos de um “sujeito” imenso, sem nome, sem olho, misterioso, que talvez só entendamos depois do tempo esgotado, quando for tarde demais. Essa é a sensação dominante.
Por que estou com essas angústias filosóficas hoje? Bem... Porque no Brasil também estamos diante do dilema: Renascença ou Idade Média, progresso ou regresso?
A rapidez do mundo atual, para o bem e mal, nos deixa para trás. Vivemos uma modernidade veloz e falamos discursos antigos. As ideias não correspondem mais aos fatos, como cantou Cazuza.
Hoje as palavras que eram muros de arrimo foram esvaziadas de sentido. Uma palavra que era pau para toda obra: ‘futuro’. Que quer dizer? Antes, ‘futuro’ era um lugar onde chegaríamos um dia, que nos redimiria de nossos sofrimentos no presente. Agora o termo ‘futuro’ tem uma conotação incessante, como se já estivéssemos nele. Estamos com saudades do presente, que nos escapa como um passado. O presente se esvai e o futuro não para da ‘não’ chegar.
Outra palavra: ‘Felicidade.’ Ser feliz hoje é não ver, não pensar, é não se deixar impressionar pelas desgraças do País ou dos outros.
Outra: ‘Miséria.’ A miséria sempre nos foi útil. Diante dela tínhamos a vantagem, a riqueza da ‘compaixão’. Era doce sentir pena dos infelizes. Hoje, diante das soluções impossíveis, temos uma espécie de raiva, de irritação nobre, bem ‘ancien regime’, contra os desgraçados. Ficamos humilhados diante da impotência de soluções. O pobre virou um                 estraga- prazeres’. E os nomes?
Que nome daremos ao desejo de extermínio que brota nos cérebros reacionários? Exterminar bandidos – e excluídos também?

E que nome daremos a paralisia da política brasileira, ao imobilismo das reformas, o absurdo desinteresse pelos dramas do País? Que nome daremos ao ânimo do atraso, à alma de nossa estupidez? Que medula, que linfa ancestral energiza os donos do poder do atraso, que visgo brasileiro é esse que gruda no chão os empatadores do progresso e da modernização? Vivemos sob uma pasta feita de egoísmo, preguiça, escravismo colonial. Que nome dar a essa gosma que somos?
Que nome dar as taras de nossos intelectuais incompetentes? São dois tipos básicos que surgem: o gênio inútil e o neocretino. O gênio inútil sabe tudo e não faz nada. O neoidiota tem certeza sem saber nada.
E que nome daremos a esse bucho informe que as misérias esta criando nas periferias?
Como chamar esta nova língua, este novo “bem” dentro do “mal”? Não é mais “proletariado” ou “excluídos” apenas. Surge uma razão dentro da loucura. Parece um País paralelo esfarrapado, com cultura própria, com uma ética produzida pela fome e ignorância.
E na política?   Quem somos, o que somos? Neoliberais, velhos radicais, neoconservadores, progressistas reacionários, direita de esquerda ou, hoje no poder, ‘esquerdismo de direita’?
E a palavra chave de hoje: “democracia.” Que é isso? Que quer dizer? No Brasil, democracia é lida como tolerância, esculacho, zona geral. Democracia, que é o único sistema ‘revolucionário’ a que devemos aspirar, é a melhor maneira de espatifar o entulho arcaico, corrupto, patrimonialista que o Estado abriga. A única revolução que se faria no Brasil seria o enxugamento de um Estado que come a nação, com gastos crescentes, inchado de privilégios e clientelismo, um Estado que só tem para investir 1,5 do PIB. A única revolução seria administrativa, apontada na educação em massa, nas reformas institucionais, já que graças a Deus, a macroeconomia foi herdada do FHC e o Lula teve a esperteza de mantê-la, graças ao Palocci, que salvou o País.
Só um choque de livre empreendimento pode mudar o Brasil. Mas esta evidencia é vista com pavor. Como aceitar o óbvio, que o Estado, nas últimas décadas, congestionado, moribundo, só tem impedido o crescimento? Isso vai contra os velhos dogmas dos intelectuais... A maioria dos críticos sociais e culturais prefere morrer a rever posições. O recente caso do Paraguai é vergonhoso. Protestam pelo “golpe” como se o Lugo fosse um grande líder, quando todo mundo sabe que era um espécie de Berlusconi tropical, ignoram o fato de que a Constituição deles previa um ‘impeachment’ como esse e abrem caminho para que o fascista Chávez comece a provocar o MERCOSUL junto com a espantosa Cristina Botox que esta destruindo a Argentina. Como perguntou alguém outro dia: ‘ Quando nossos intelectuais de esquerda vão denunciar pelo menos a Coreia do norte?’
A verdade é que para eles a democracia parece lenta e ineficaz. Como disse o Bobbio: O ódio à democracia une a esquerda e direita. Querem um autoritarismo rápido, que mude “tudo isso que esta ai”. Esse episódio do Paraguai, que a presidente Dilma visivelmente teve que aderir de má vontade, por imposição dos ‘cucarachas’ fascistas, aponta para uma restauração da velha febre anti- imperialista que justifica e absolve a incompetência da América Latina. E tudo isso apoiado por picaretas neomarxistas como o Showman Slavoj Zizek e alguns babacas daqui.
A América Latina esta com fome de autoritarismo, que é bem mais legível para paranoicos.

Fonte: Jornal ‘O Estado de S.Paulo’, Caderno 2, D10, terça-feira, 17 de julho de 2012.